Como nasce uma flor

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Flor em Flam, na Noruega

Estas memórias são escritas para a minha heroína desta aventura (e de muitas outras). E esta imagem é para a nossa flor, nosso amor.

Algo me disse que era melhor não deixar o depósito de combustível na reserva. Saí já quando todos dormiam para ir ao posto de combustível e aquela preocupação desvaneceu-se. Às 3h da madrugada do dia seguinte, acordei e percebi que estavas a tomar um duche. Vieste depois ter comigo e disseste que achavas que seria agora. Que já tinhas avisado a tua mãe, que já vinha a caminho para ficar com ele, e a Márcia que iria lá ter. As contrações estavam a surgir, ritmadas, ias parando em silêncio por uns momentos. Pegamos nas nossas coisas, mais qualquer coisa para comer e não nos falharem as forças, e lá fomos.

Àquela hora da madrugada não se via vivalma, o caminho foi tranquilo e pontuado por contrações que se tornavam mais dolorosas pela posição em que se viaja de carro.

Chegamos por volta das 4h, não sei bem. A noção de tempo ficou meio distorcida. Queria que sentisses que tinhamos tudo controlado, que desta vez sabíamos o que estava a acontecer e como fazer valer a nossa vontade, contra o que nos fizesse frente.

Ajudei-te a sair do carro e foste em direção à porta da maternidade, de onde a Márcia, que lá nos esperava, saiu ao teu encontro. Abraçaram-se e, após mais uma descarga de oxitocina, percebi pela vossa reação que a bolsa das águas tinha rebentado. Fomos instalados no quarto disponível, que era o mais distante no corredor para a sala de partos. Foste observada passado um pouco e todos ficámos surpreendidos pelo ponto avançado onde já nos encontravamos.

Quando nos deixaram sós com a Márcia, foi bom sentir a tranquilidade que nos assolava, inesperadamente. Conversavamos muito, não faço ideia já sobre o quê, com descontração, intervalando com breves momentos de contração, em que faziamos silêncio em comunhão. E assim seguimos, descontraindo e contraindo, pacientemente. Sabendo que se trata de um caminho, soubemos tirar partido da viagem, sem desesperarmos pelo destino. Estivemos em paz. Aceitámos que o caminho é longo, mas escolhemos fazê-lo felizes, com sorrisos, sentimo-nos leves e determinados. A confiança tem uma base de fé em nós mesmos, no teu corpo, no teu querer. Minha pequenina, o que nós já passámos até chegar a este patamar. Torna ainda mais inacreditável o que nos estava a acontecer.

Quando as contrações foram ficando mais intensas, massajámos as tuas costas para aliviar a dor, qual fio condutor. A Márcia trouxe uma essência que perfumou o quarto. São as pequenas coisas que nos aguçam a memória. Sei que aquele cheiro me vai fazer recordar aqueles momentos. Os sentidos talham a memória com precisão. Massajávamos onde pedias, onde te aliviava a pressão que sentias em crescendo. E crescendo foi o balanço que ganhavas. Quis ser eu a massajar-te sempre que as contrações chegavam, queria muito sentir-me parte daquilo por que passavas. Sabes que te amo? Queria muito esforçar-me em conjunto contigo, queria suar, queria sentir a fadiga que estavas a sentir. Carregaria os pedregulhos que fossem precisos, se tal contribuisse para o teu labor. As contrações estavam fortes e, de pé, passaste a apoiar-te sobre a cama. Fomos finalmente tomar um duche, a água quente iria ajudar. Receei que tivessemos jogado esse trunfo cedo demais, não conhecia o caminho e não sabia se estavamos perto ou longe. Por momentos, disseste que não ias aguentar. Para ser franco, não fiquei preocupado por esse desabafo. Sei que és capaz, os teus olhos diziam que continuavas ao leme naquelas águas conturbadas.

Finalmente, estava a acontecer. Sentiste a vontade, aquela de que ouvimos falar de uma forma tão simples. A vontade de fazer força surgiu e disseste que ia nascer, já, ali, logo, naquele instante. Mas não foi logo. Estavas de pé e quase lá. Deitaste-te na cama e foste à boleia para a sala de parto. Caminhei ao teu lado, em passo apressado, em esforço para te acompanhar como sempre. Pediram-me para esperar à entrada e levaram-te. A Márcia disse-me que tinha que vestir aqueles trajes de hospital para poder entrar. Fiquei com ela, a olharmos um para o outro, incrédulos por não me acolherem juntamente contigo. Fiz aquilo que sentia que tinha que fazer. Espreitei uma porta, à entrada, e entrei numa despensa de onde tirei as proteções que fui capaz de encontrar, coloquei-as e fui até à sala onde estavas. Tentavas, naquele momento, deitar-te ou sentar-te numa marquesa, uma qualquer coisa dessas. Estranhei mas não questionei, não podia desviar-te da tua procura da melhor posição. Logo disseste que não conseguias assim e, virando-te, apoiaste a cabeça naquela marquesa.

E assim foi que a nossa flor nasceu. É aliás assim que temos vivido a nossa vida. Virados para nós, para o que nos importa, de cabeças juntas, com sussurros de amor aos ouvidos, às escuras se preciso for, com o inevitável cafuné. Assim que ela saiu do teu ser e passou ela a ser, por ela só, foi para o teu peito e a abraçámos. Estava ali connosco, outra ternura, fruto do nosso amor e acabado de colher.


Quando pensamos que já amamos com todo o nosso ser, estamos claramente enganados:

O mundo que escolhi

Gira num eixo de amor,

Seja por ti, seja pelo Gui,

Seja pela nossa nova flor.


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