Ser em reflexão

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Reflexo da Trinity Church na John Hancock Tower, em Boston


Dentro das variadíssimas formas de ser, só há uma que nos bem assenta. Essa forma é escolhida por nós em estreita medida, pois o que somos já o eramos antes sequer de saber o que queríamos ser, quanto mais de saber o que realmente somos.

Podemos tentar ser um derivado de nós em diversas variantes. Mas, como nas estradas variantes, só vamos dar uma volta maior para chegar ao mesmo sítio: nós mesmos.

Escolher o percurso da estrada variante apenas evita passar pela rua principal do nosso ser. O caminho percorrido nessa rua é-nos terrivelmente familiar, recorda-nos os nossos tropeções e valentes quedas que queríamos esquecidos. Leva-nos às profundezas das nossas memórias, desde as mais tenras às mais duras, as que nos deram, mal ou bem, orientações em direção à vida como a conhecemos. Evitar percorrer esse caminho de introspeção, e talvez de aceitação, levar-nos-á distraídos, por mais ou menos tempo, pela nova paisagem, onde eventualmente encontraremos o ser que queremos escolher ser.

Mas o mundo é redondo e, ainda por cima, gira sobre si mesmo. Assim como é a vida, redonda também, que se desenrola em ciclos que completamos em contínuo. E a rua principal irá deparar-se-nos uma e outra vez, irremediavelmente, com a verdade inevitável do nosso ser.

Por mais voltas que se dê, procurar ver em nós a imagem de outrém não nos torna alguém que não somos. Não nos transforma.

O brilho de quem é com verdade perde-se na trajetória desde a sua fonte até ao reflexo no espelho que queremos ser. E ainda mais se perde desde o espelho em diante. Olhos cansados tornam-se crédulos, dificilmente distinguem a nitidez do original do clarão da cópia. E podem ser levados a concluir que o reflexo é o original.

Todavia, os reflexos são imagem invertida da realidade. Parecem reais mas estão falseados, trocam a esquerda pela direita, estão desvirtuados e facilmente ficam baços. E o espelho que nos esforçamos por ser, um belo dia, nos deixará de ludibriar.

Nesse belo dia regressaremos à nossa rua, para nós próprios, e daremos a mão ao que nosso verdadeiro ser. Poderá ser a única mão que nos levantará do chão em que em tempos caímos.


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