Onde procurar

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Cascata num cenário de encantar, mesmo à beira da Ring Road nas imediações de Vik, na Islândia.


Não causará muita discórdia se disser que, em terra, o ser humano procura o mar. Seja para se banhar, para se acalmar, para o ajudar a reposicionar-se no universo, seja simplesmente para contemplar a paisagem formada pelo embate entre o mar e a terra. Parece existir uma atração que nos puxa para o litoral. No alto de um cabo ou de uma falésia, tende-se a mirar o mar, voltando as costas à terra. Talvez assim seja porque o mar está em constante regeneração, observável a olho nu, em conjugação com os outros elementos da natureza. É belo mas fugidio. Atrai-nos porque não revela o que guarda nas suas profundezas, tem demasiados segredos e um temperamento misterioso, ora dócil e ameno, transmitindo tranquilidade e lisura, ora agreste e impaciente, demonstrando a sua grandiosidade e a nossa vulnerabilidade.

Existe, todavia, este lugar no mundo que, apesar de rodeado de mar, nos atrai o olhar para o seu interior, em detrimento da vastidão que o circunda:

Islândia, terra do fogo e do gelo, não precisa de autoestradas. Basta a estrada principal n.° 1, conhecida por Ring Road, que percorre a ilha toda em volta, apresentando uma forma de anel no mapa. Percorrer essa estrada tornou-se uma viagem inesquecível.

A peculiaridade desta estrada é que nos leva a admirar toda a diversidade de paisagens que a ilha tem em terra, colocando o mar gélido do Oceano Atlântico em segundo plano. Quem já a percorreu viu que o interior da Islândia encerra incontáveis surpresas para os nossos sentidos,  que coloca o sedutor mar quase no esquecimento. É uma terra de fascínio, de procura mas também de apaziguamento.

Esta ilha é como nós. Temos demasiados recantos interiores que parecem inacessíveis, que passam despercebidos até que algo nos leva a procurá-los. Podemos passar uma vida inteira à procura de um sentido, ou de um sentimento, que julgamos pairar por aí numa esquina incerta. Essa sensação de busca pode levar-nos até destinos longínquos, lugares estrangeiros ao nosso ser, sítios perdidos na vastidão. Essa sensação de busca pode confundir o nosso caminho, inebriar o nosso discernimento com as sensações que o movimento nos traz, e encenar a certeza de que nos encontraremos connosco próprios lá fora, num outro canto desconhecido do mundo. Essa sensação de busca esvazia-nos e enche-nos, em ciclo contínuo. Mas não nos apazigua. Quando a busca se tornar repetitiva, o caminho que nos restará, concluiremos um dia, será interior – não se mede em milhas aéreas nem em metros de altitude nem em estrelas Michelin. Terá sim, esse caminho, muitas coisas novas para nos fascinar. Que já cá estavam muito embora sem nunca as termos antes visto. Não saberemos como de tal não nos apercebemos até então. Somos como esta ilha. No nosso interior guardamos a nossa energia, o nosso calor, a nossa sustentação. Temos que aprender o nosso caminho para podermos, percorrendo-o, conhecer o nosso âmago.


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