Alturas

Cabo Girão, na ilha da Madeira.


Uma paisagem deslumbrante espera os desprevenidos que passam pelo Cabo Girão. Com 589 metros de altitude, é dos cabos mais elevados da Europa. A sua beleza é estonteante, nem que o seja pela vertigem que tal altura provoca. Citando Trifólio Girassol observando a Terra do espaço, depois de se contemplar um tal espetáculo, pode-se morrer. E, no entanto, é o medo de morrer que nos induz a vertigem, empurrando-nos para longe do abismo, afastando-nos do perigo, cambaleantes.

O medo é dos sentimentos mais primários da existência humana. Senão mesmo da existência de vida, no sentido em que é peça fundamental do instinto de sobrevivência. O cheiro a perigo, a base da nossa intuição, faz disparar adrenalina no nosso corpo. Mantém-nos alerta, de pupilas dilatadas, de resposta pronta. Os nossos sentidos despertam, apodera-se-nos o nosso lado mais animal.

Contudo, crescemos ouvindo, desde cedo demais, que não é para ter medo do cão ou dos meninos intrometidos ou do toque horário da sirene dos bombeiros. Irrazoavelmente, ouvimos ao mesmo tempo, demasiadas vezes, que vamos cair, que nos vamos magoar, que surgirá do escuro o lobo (pobre animal) para tratar do seu jantar. E brinca-se, no pior sentido da palavra, com os sentimentos das crianças, baralhando o seu instinto com indicações erradas.

Celebra-se a coragem como ausência de medo, fazendo crer que o herói age sozinho, dispõe do controlo dos acontecimentos, ou seja, que a dúvida sobre a vitória reside somente no momento e na forma.

Não senti vertigem no Cabo Girão. Mas tenho-a sentido em sonhos. Perspetivando o meu filho a contemplar a visão de outro Cabo, o da Roca, temo por vê-lo tão perto de um precipício, mesmo que contido pelo amurado. Temo que o entusiasmo da visão lhe inebrie a sensatez, que o ímpeto de demonstrar a sua autonomia deturpe as minhas palavras de preocupação e, imprudentemente, não faça caso.

Ele só tem quatro anos, nestes dias em que esta prosa discorre… Mas quero-lhe tanto bem, coloco tanto primor no meu afeto, que o medo me pega num repente instantâneo e me repuxa a nuca, sinto o meu cérebro a pulsar, a boca a secar.

Ouve-nos, meu filho. Porque não quero deixar de ver contigo todos os Cabos que se debruçam sobre o mar.


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