O incrível teste do tempo

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As escarpas de Na’pali vistas do miradouro de Pu’u O Kila, na vertente norte da ilha de Kauai


A ilha de Kauai é a mais antiga do arquipélago do Hawaii. Foi formada há milhões de anos no mesmo ponto vulcânico que, fruto do movimento da placa tectónica do Pacífico para noroeste, hoje em dia se encontra debaixo da ilha de Hawaii (mais conhecida por Big Island). Uma das marcas mais simbólicas da antiguidade da ilha de Kauai está na sua vertente norte, a Na’pali Coast. Esta costa tem mais de vinte quilómetros de falésias altas e verdejantes, amachucadas em forma de acordeão, com picos e escarpas literalmente pontiagudos. A erosão provocada pelos ventos do nordeste formou esta paisagem incrível, conferindo a estas falésias inacessibilidade suficiente para perdurar intacta. Trata-se de um cenário tão grandioso que não mostra sinais de sofrer influência direta de quem o habita. Só do tempo.

A passagem do tempo não deixa nada nem ninguém incólume. As células que nos formam atravessam vários estádios, desde o momento em que foram criadas, produto de uma multiplicação que parece minuciosamente calculada, até ao momento em que perecem, em contínua reconversão em diferentes matérias.

É por isso que envelhecemos. A matéria que nos forma não é imutável, transforma-se. Num primeiro andamento, a transformação acontece a uma velocidade estonteante. Nascemos com assinalável capacidade de absorção, as células multiplicam-se em azáfama, temos saltos de desenvolvimento que nos desconcertam e desafinam. Em constante evolução, crescemos muito em muito pouco tempo. Todavia, a capacidade de absorção não é infinita e, num segundo andamento, as ligações neuronais vão enraizando o cérebro com memórias, havendo por isso cada vez menos regeneração. Evoluimos então mais lentamente, mas mais capazes de pensar, de reconhecer, de ponderar, de viver tranquilo.

A ilha de Kauai é a mais bela do arquipélago. É a mais rica, mais diversificada, mais verdejante. É aquela onde, apesar de não estar encerrada ao estrangeiro (onde incluo o americano), é possível ainda sentir a sua autenticidade. Vive-se a sua natureza no sentido em que aquela antiguidade se respira no ar, nos cerca e nos domina ao nos generosamente integrar, como meros seres efêmeros que somos.

Não há que recear em envelhecer. O tempo não pára, põe-nos à prova. Testa a nossa vontade de viver. Só passará quem compreender o que está a acontecer, quem souber tirar partido de todos os estádios que a nossa vida atravessa. A vida é bela, não só na juventude, mas principalmente na nossa plenitude, precisamente quando entramos no estádio de afirmação das nossas opções. Quando as tomamos em consciência, quando as tornamos próprias. Quando tranquilamente nos aceitamos, em respeito por nós próprios. Se somos como ilhas, quererei ser um dia como Kauai.


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