Mais, sempre

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Monumento aos conquistadores do espaço, em Moscovo


Mais alto, mais distante, mais rápido, mais longo, mais fundo: a incessante corrida pela diferenciação. Não nos basta ser, urge o apelo inato para nos sentirmos especiais, diferentes, únicos.

Trata-se de uma questão de auto-estima. Em pequenos, é importante que nos façam sentir especiais. Reforça a auto-estima, melhora a perceção de nós próprios, induz a confiança de que somos capazes de enfrentar desafios.

Crescemos e vários cenários podem ocorrer. A consciência do nosso papel no mundo pode ajudar a relativizar a urgência pela diferenciação. A racionalização, a capacidade de pensamento abstrato, a interpretação da nossa existência, podem mostrar novos caminhos para o nosso ser. Trilhos, por norma, mais pacatos e comedidos, em que a partilha é restrita.

Outro cenário é tal não acontecer. Somos permeáveis ao enaltecimento dos marcos que parecem inalcançáveis. Procura-se a evidência pela evidência, a fama pela fama, o reconhecimento de qualquer coisa, em qualquer lugar, em qualquer momento, seja o que for, por força, por favor, ou por imposição. A ambição natural confunde-se com o capricho. Revolvem-se cemitérios, se preciso for, na busca por algo observável, comprovável por factos inegáveis à vista desarmada, na busca pela demonstração inequívoca de superioridade.

Regressamos à infância ao entender a celebração do individualismo como um fim em si mesmo, transparecendo que a devida valorização, que é absolutamente positiva quando somos crianças, não aconteceu no devido momento com a necessária assertividade, deixando pessoas crescerem pouco convencidas do seu valor interior. Fica assim acicatada a postura egocêntrica de luta contra tudo e contra todos, por todos os meios imagináveis, para a celebração de si próprio pelos feitos, sempre tangíveis, alcançados. Fica assim a via aberta para a querela, para a fuga pela exclusão de quem não sente a mesma urgência, para a atração, em órbita invejosa, por quem valoriza e deseja a mesma evidenciação.

O monumento aos conquistadores do espaço em Moscovo é, sem dúvida, impressionante. A começar pela base gigantesca da estrutura, adornada com mulheres e homens importantes para a dita conquista, talhadas em relevo na pedra escura e esverdeada. A base segura estoicamente o jato metálico, feito de titânio, que ergue nos céus, a uma altitude de 110 metros, o foguetão russo (que parece tirado do modelo XFLR-6 do Tintim – Rumo à Lua). Abaixo do monumento fica um museu sobre o tema.

Há outros exemplos de gigantesca monumentalidade em Moscovo, o que torna a cidade muito apelativa. Ainda se pode observar estes marcos de outra era, a era soviética, por vários pontos da cidade e, calculo, da ex-URSS. A era soviética tinha uma imagem marcante, muito forte. Em pleno comunismo, havia um culto pela diferenciação enquanto nação. Esforços significativos eram empregues na demonstração de que eram a maior, a melhor, a mais certa nação do mundo. Que as escolhas feitas em matéria de organização da sociedade eram as mais acertadas, as mais patrióticas, as mais eficazes na defesa do bem comum.

Nesta luta, não pode faltar a força antagónica, o exemplo do que não se quer ser, o cúmulo do errado. A era soviética não seria a mesma sem o seu rival, e o contrário também se verificava. De que serviria ser a maior, a melhor, a mais certa nação do mundo, se não pudesse olhar de cima para as outras nações menores, inferiores, mais atrasadas e iludidas?

É muito difícil ser mais sem a comparação com um ponto de referência externo. É muito difícil ser mais sem poder escrevê-lo no cartão de visita e exibi-lo em toda e cada ocasião, na esperança que demonstre, em adiantamento, toda a montra de troféus reluzentes e ateste desesperadamente a desejada superioridade. Ignorando, pois se quer esquecer, que estes troféus não perduram no tempo, tornam-se ineficazes e redundantes quando demasiadas vezes vistos.

É muito difícil ser, só. De mim cuido quando me afasto desta corrida e simplesmente deixo o pelotão passar, montado nos seus foguetões.


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