O girassol sem terra

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Banca de flores em Copley Square, Boston MA


O girassol é, de entre as plantas da nossa praça, a que mais fará pela sua vida. Todos os dias investe o seu precioso tempo a saracotear-se, desde que o sol raia, procurando posicionar-se para melhor absorver a luz solar e, assim, alimentar-se. No final do dia, cabe-lhe o merecido descanso, curvando-se em descompressão, até de novo o sol raiar.

É uma planta inteligente. Não espera pelo momento do dia em que o sol incida diretamente sobre ele, vai antes ele à procura de um lugar ao sol. Não tivesse raízes e decerto seguiria o percurso do sol, atravessando o mundo inteiro, em redor do planeta.

A raiz, enfim, tolhe-lhe o seu ímpeto de viajar, explorar o mundo e de perseguir o poético sonho de caminhar em direção ao pôr-do-sol. Pelo menos, tem a utilidade de o hidratar, fazendo-lhe chegar a água da chuva que se esgueira pela terra.

O girassol da fotografia tinha, também ele, o sonho de viajar. Encontrá-mo-lo numa movimentada banca de flores, na rua. Estava sedento, dizia ele, por conhecer o mundo. Veio connosco.

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O girassol seguia caminho na sua transportadora

Partimos de Boston. O girassol é muito dinâmico, inclina-se para onde melhor lhe aprouver, de forma a ver a paisagem. Seguiu a viagem numa garrafa de plástico, com alguma água no fundo que lhe dava pelo pé, e viu um mundo diferente do que conhecia até então. Recordo-me de juntos observarmos, algures ao largo das Appalachian Mountains, que o céu americano parecia diferente do europeu, que as nuvens eram maiores, mais brancas e circulavam mais alto. O girassol estava estarrecido. Passámos pela zona de Finger Lakes, perto de Ithaca, onde pernoitámos. Almoçámos num restaurante muito bom mesmo, mas não dissemos nada ao girassol (porque era um restaurante vegetariano). Fomos ver as Ithaca Falls que ficam, podem crer, no coração da cidade.

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Ithaca Falls, na região de Finger Lakes, no Estado de Nova Iorque (human for scale)

Percorremos o Enfield Glen, um desfilafeiro algo inesperado, até à piscina natural abastecida de água pela cascata com o mesmo nome. Depois, seguimos em direção às cataratas do Niagara. Apesar de termos visto tanta água, como nenhum de nós tinha alguma vez visto, a escorrer incessantemente pelas vertentes das cataratas do Niagara, lançando nuvens imensas de vapor de água pelo rio abaixo, o girassol continuava sedento.

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As cataratas do Niagara vistas do lado do Canadá (cacilheiro for scale)

Queria mais, e inclinava-se, esperançado, para outras bandas, que sentia que esperavam por ele. Estranhamente, não se inclinava mais para o lado do sol, a luz solar parecia agora colher desinteresse. A luz naquele lugar do mundo parecia-lhe a mesma que a que ele já bem conhecia.

Ao mesmo tempo, notava-se já algum cansaço nas suas feições, o aspeto enérgico e viçoso de outrora começara a desaparecer. A água na garrafa parecia agora não ser absorvida com a mesma vontade.

Continuámos o caminho até Toronto e de lá até à zona dos 1000 lagos. O girassol estava agora, sem margem para dúvidas, visivelmente cansado. As pétalas, até então protuberantes e vívidas, estavam a escurecer e a enrolar-se. Trocar a água da garrafa, que parecia rejeitada, por água fresca não fez grande diferença.

Ficámos preocupados. O regresso a Boston foi feito de uma assentada. Estava um dia de tempestade, e durante os cerca de 600-700 km da viagem não parou de chover. Caiu quase tanta água dos céus como a que vimos escorrer em catadupa (passo o pleonasmo) nas cataratas do Niagara. Mesmo assim, o girassol não arribou.

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Outra perspetiva da quantidade de água que cai em catadupa

Acontece que o pé do girassol, na extremidade do seu caule, tinha lentamente apodrecido. Não estava mais a sorver a água que lhe serviamos. Não tinha pé para aquelas andanças. Por mais água que abundasse pelos sítios que percorremos no nosso passeio, ele não estava preparado.

E porquê? – coloca-se a questão. Porque o girassol se separou da sua raiz. A tal que o prendia à terra, que era a sua, e não o deixava percorrer o mundo em busca da sua quimera. A tal que é, muitas vezes, vista como detratora, inibidora e condicionadora de movimentos.

Mas que é, por outro lado, aquela que subtilmente lhe dava a fonte da vida. Que dava o conforto de um lar. Que lhe incutia um sentimento de pertença, mesmo que seja a uma terra que não é a sua. Aquela que, sem ninguém a ver, não deixava o girassol secar perante as vicissitudes da vida, extraindo da terra que a cobre os nutrientes que puseram o girassol a viver, a desejar, a sonhar.


Por isto e por tanto mais, digo-vos o quão agradecido me sinto, minha mãe, meu pai. Não vos escolhi nem vocês me escolheram a mim, pelo que tenho-me como abençoado pela sorte da vida: por nos terem unido e por me ter sido permitido crescer convosco, na vossa companhia, com os vossos ensinamentos. É lesto o peso que sobre nós cai quando não concordamos com um filho. Mas o que os vossos netos mais me ensinam é que somos o que somos antes de sequer sabermos o que somos. Os pais estão com os filhos para os ajudar no que der e vier, não estão com os filhos os substituir no embate com a adversidade. Há coisas que compete à vida nos ensinar, não tem que ser tudo pelouro dos pais.

Estou-vos grato pela vida em que me iniciaram. Por toda a água com que me regaram. Ainda hoje me regam com a água que preciso. Bem sei que acham que é pouca, mas é a suficiente para eu ser feliz. E sou-o.


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