Um ar bonacheirão

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Gecko fitando a lente da máquina fotográfica, colado a uma parede de um hotel em Kona, na Big Island (Hawaii)


Este belo exemplar com ar amigável é, segundo foi possível apurar, um orange spotted day gecko.

As cores vibrantes da sua pele escamada condizem perfeitamente com o ambiente circundante na ilha. As escamas são praticamente redondas, se vistas de muito perto, parecendo pequeníssimos berlindes coloridos com tons alegres e tropicais. Estes animais têm também a particularidade de fazerem a sua vida à luz do dia, sendo um importante elemento de controlo de pragas domésticas (como as baratas). Não se ralam muito em serem vistos, pois tal indumentária dificulta sobremaneira qualquer tentativa de ser furtivo. É mesmo para ser vista.

Esta aparência confere-lhe um ar bonacheirão, sendo até um dos símbolos da fauna das ilhas do Hawaii.

Depois de o conhecer melhor, no entanto, o encanto inicial desvanece-se num ápice. Ora vejamos:

  • É uma osga, temida por muitos homens valentes do nosso Portugal – os havaianos chamam-lhe gecko por similaridade com o som que o bicho produz;
  • Se estivesse coberto de escamas irregulares, esverdeadas e cinzentas, com crina pontiaguda (como outros primos da mesma espécie), o visual não era tão apelativo e fofinho;
  • É fortemente territorial, come juvenis e crias da sua própria espécie, não lhe faz diferença se se trata da sua própria prole;
  • É extremamente agressivo com as fêmeas, deixando-as frequentemente moribundas, de tal forma que as fêmeas até encontraram forma de se livrarem dele ao conseguirem reproduzir-se através de ovos não fertilizados que resultam sempre em novas fêmeas.

Este retrato mais aprofundado é categórico: não se trata de boas rês. Contudo, a aparência sempre foi, desde o início dos tempos, um chamariz poderoso. Este gecko continuará a recolher simpatia pelo que parece ser, e dificilmente será sequer admoestado pelo que é. Essa parte, mais obscura, só se tornará pertinente para as suas vítimas, que lhe conhecerão a sua verdadeira natureza quando já é tarde demais, quando já passaram a essa condição.

O cultivo da aparência é algo bastante disseminado e não tem, em si só, um efeito nocivo. Diria até que pelo contrário, o cuidado pessoal é sintomático de um espírito são, embora não seja condição indispensável. O que choca no gecko, enquanto réptil fofinho, é a instrumentalização da aparência como forma de sobrevivência e de superação de obstáculos.

Até uma osga pode ser sedutora. Dê-se então o devido relevo que, na realidade, a aparência dos outros tem para a nossa felicidade.


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