Missão comprida

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Família captura momento para a posteridade no Jantar Mantar, em Delhi


Ter um filho está ao alcance de uma grande franja populacional em idade fértil. Cuidar de um filho é, contudo, uma tarefa mais singular. Não é tão natural nem tão imediata como se faz crer. É desafiante, difícil e tentativamente desempenhada somente por um punhado de deslumbrados. Acham estes que um filho deve ser respeitado na sua vulnerabilidade, desde que nasce. Que aprenderá a respeitar os outros e o mundo através do respeito que se demonstra por ele, todos os dias, todos os momentos, durante muito tempo.

É um desafio excecional que ninguém passa incólume. Estranhamente, raramente esta provação se coloca no curriculum vitae. Talvez porque é difícil obter uma classificação brilhante ou porque a avaliação não é fiável. O avaliador por direito está condicionado pelo sentimento, não é imparcial e é assim irremediavelmente influenciável, não fosse ele filho de seus pais e, portanto, intrínseco defensor de seus próprios criadores, para além de detentor de uma dívida subordinada e perpétua. Assim é e assim será, mesmo quando os seus criadores e credores não são o melhor que conseguem ser, calcando neles, os filhos, uma amargura latente, ainda que quase sempre escondida e envergonhada. Quase sempre despercebida, começo agora a descobrir…

Ser pai transformou-se em algo muito importante para mim. Curiosamente, tenho consciência que essa importância só passou a ser real e contundente a partir do momento em que o meu primeiro filho me olhou nos olhos, enquanto dormitava nos meus braços depois de nascer. Aí eu senti algo, talvez um sentido de missão, que cresceu com o ininterrupto crescimento do meu filho e dobrou com a vinda, tão doce e suave, da minha filha. Sei que esse sentido continuará a crescer com eles, sei que não tem fim.

Quero que os meus filhos sejam felizes, pelo menos tanto como eu. Quero-o mesmo sabendo que o papel de pai é somente complementar e que esse feito dependerá deles e das suas escolhas.

Fico enternecido ao ver a situação da fotografia, a milhares de quilómetros da nossa casa, porque nos revejo numa cena familiar partilhada por quem tem uma cultura tão diferente mas valores tão semelhantes.

Quando voltar a Delhi também quererei tirar uma foto aos meus filhos naquele lugar: no ponto mais alto do topo do meu coração, para onde escavei uns pequenos degraus. Para lhes permitir chegarem lá rapidamente, com naturalidade, sempre que precisarem. Para se sentirem elevados pelo que são, sempre que precisarem. Para melhor verem a paisagem da vida e apreciarem a sua beleza, sempre que precisarem. Para se apoiarem nos ombros do pai, sempre que precisarem.


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