Até onde a vista alcança

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Águas cálidas na praia de Paliochori, na ilha grega de Milos


Só as águas paradas permitem ver com nitidez o fundo do mar. Pelo menos, até onde a vista alcança e onde chega a luz. A superfície das águas, empurrada pela mais suave brisa, irá baloiçar numa dança incessante. Só depois de muito sacudidas, após um longo período em que o vento amainou, é que as águas retomam o equilíbrio e a quietude que permitem ver o fundo do mar sem distorções.

Essas condições não se verificam com frequência. O vento não tem por hábito retrair-se em retiro no alto da montanha, prefere vaguear incessantemente por aí e por acolá, sem fazer planos. E se não for o vento a sacudir a água, há-de ser o mais leve movimento da barbatana dorsal de um peixe, se calhar -palhaço que gostava de ser levado a sério, que vive no outro lado do globo terrestre. Movimento esse que desencadeará uma sucessão de eventos em turbilhão pelos vastos oceanos entrelaçados em correntes, o que explica a razão pela qual as águas da praia de Paliochori baloiçam sem parar, ao largo da ilha grega de Milos.

Uma ou outra coisa, algo há-de inevitavelmente acontecer que pertubará a visão do fundo do mar. Impedirá ver com clareza aquilo que pretendemos.

Queria ver melhor as pedras roliças que abundam naquela praia, queria observar a forma como elas se apoiam entre si e fazem chão de muitas cores.

O que se pode fazer? Posso esperar talvez que, um dia incerto, as águas se tranquilizem. Existe sempre a alternativa de mergulhar a cabeça dentro da água e assim eliminar o efeito do balanço inconstante da sua superfície, que engana os nossos olhos. Assim não será possível respirar, é certo. Mas só assim se constatará que aquelas águas têm correntes de calor e que são aquecidas por fontes geotérmicas localizadas debaixo do fundo do mar.

A visão alcança muito, mas outros sentidos dão-nos aquilo que não vemos.


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